Thursday, January 17, 2008

Prazer escrito

"Não te rias de mim, meu anjo lindo!
Por ti - as noites eu velei chorando,
Por ti - nos sonhos morrerei sorrindo!"
(Álvares de Azevedo)

Queria nessa noite que seus dedos o dominassem. Que passassem desrespeitosamente a escrever, sem sequer ouvir sua mente e arrogantemente ignorando meu coração. Pensou que assim pudessem sair as mais bonitas palavras conectando-se lindamente e divagando sobre o sexo numa plástica tão bela como o abraço de dois corpos nus.

Pensou que assim as palavras enamoradas tocariam os lábios num sopro suave de primavera. Que o orvalho e o suor não mais seriam distinguíveis no lascivo amor da madrugada gozada ao redor de árvores. O toque lânguido das unhas marcasse como tatuagem por dentro da pele, escavando os profundos indeléveis caminhos d'alma. E que aquele piscar de olhos metralhasse fulminantemente qualquer pensamento que não tendesse ao pecado. A língua curiosa penetrasse o âmago dos segredos mais sinceros que haviam sido enterrados junto às promessas passadas. O susurro despertasse o corpo n'alvorada tímida que inutilmente se tenta fazer insossa e se armadilha ao tornar seu medo um charme absolutamente irresistível.O palpitar dos seios em vulcão jorrasse todo aquele desejo guardado sob as sete chaves do pudor. O gemer desavergonhado revelasse ecoasse aos corredores pornográficos das lavouras onde os jovens aprendem o prazer do pecado.O perfume de volúpia quedasse intrínseco nas quatro paredes em que os velhos em seus últimos suspiros trepam vagarosamente rumo ao além.

Queria ele, no fundo, que grito incontido de gozo rompesse os tímpanos daqueles que nessa mesma hora praticam o silêncio sepulcral da trepada secreta. E que todas as faces congelassem ao prazer, de bocas abertas e olhos cerrados, sem conseguir enxergar além da volúpia, o mundo que os cerca.O suor petrificasse se fazendo manto impenetrável às dores e carinhos. O cheiro do sexo bem feito penetrasse intrissecamente as narinas e lhes obstruissem qualquer odor que não fosse de carne e de prazer. E as bocas todas que se calem...não falem e chupem e suguem e comam tudo que o pecado pode oferecer.

Pois só assim, sem sentidos, o poeta não mais ficaria sentido. Nada teria escrito. Guardaria sensações e não palavras sobre amores que nunca viveu.

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