Grito Literário

Monday, May 20, 2013

Desaprenda
curiosolhar
ex-pudor
criançe-se

Sunday, January 27, 2013

Adolescente

Me diz em imagem o espelho
Que levo em meus olhos vermelho
Nesses casos o que um homem faz?
Reflito com grande vergonha
Será que digo aos meus pais
A verdade que estive chorando
Ou a mentira que fumo maconha?

Tuesday, December 11, 2012

INTIfada, mágicos encontros palestinandinos

Tenho a pedra na mão
e a fúria nos olhos.
Olho ao redor
e não encontro alvos

Tenho meu amor
e meu silencio
Escuto seu clamor,
ouço ecos de minha voz:
não não não não não!


Quantos silêncios pagarão?

Do outro lado do globo

V
V

B
O
M
B
A
S

C
A
E
M

V
V

Bombas caem, bombas caem
Bombas caem.
Vidas sobem
Aos céus
E eu? E eu? E eu?

De repente
o estremecer minha mão
Sinto a pedra deslizar
suavemente
De volta à terra

Meu olhar imagina seus olhos
de mirada penetrante
e doçura infantil
Abraço qualquer coisa
imaginando ser seu corpo

Desculpe não poder mudar o mundo
Para quê esse mundo?
De covardes covardias
De violentas insanidades
De ódio vulgares
De egoísmos silenciosos
Para quê?

Só posso prometer
resistir bravamente
Para quê?
Para que esse mundo
Jamais me mude.

Sei que já é tarde
e estamos tão longe
Que faz sol lá fora
e chove dentro de mim

Mas de repente
me escorreu
uma gota de alma
com gosto de terra

A Terra me disse
que estamos tão perto
e ainda é cedo

É um segredo....
Não conte pra ninguém:
Em algum lugar do cosmos
Estamos junt@s! Estamos junt@s!
Estamos junt@s

Alô alô Planeta Terra

Aqui estou eu
Transmitindo a dor
Pelas doces ondas do tédio

E lá vou eu
Perseguindo o odor
Das flores do prédio

Versos de sujeira
Escutados no além-ser
Este monstro desconhecido
- e todos os monstros o são
em sua fatídica inexistência-
faz cosquinhas nos pés

Pratos feitos de garfos
Escondendo rastros de fome
Alô alô Planeta Terra
Alguém para acariciar meus medos
Em cambio de uma moeda?

Ai ai ai orvalho que não vem
Chuva que sobe
Rebeldia que não tarda
Em ser eu

A privada é pública
Governos e cagadas homéricas
Bêbados e seus porres foucaultianos
Bar, bares, idades
Estou ficando velho
De frases, caduco
De gases. Petróleos jorrando
Dos pênis desse capitalismo
Utópico.
O trópico, esse sim tão real
Quanto o meu pau.
Calor dos inferno
Que é o mesmo que céu
Dos nossos corpos suados e nus.

Porque todas as coisas
Tem que fazer sentido?
Porque os militares que fazem
Não fazem. Sentido!
Porque as pessoas o que você
Não tem sentido?

Monday, July 09, 2012

Tardor

São quase meia-noite e minha bicicleta desliza no asfalto molhado. As folhas secas pulam das árvores tentando me abraçar. Ao encontrar suas companheiras perto do chão, sobem, descem e giram nessa deliciosa valsa que é o outono. A noite sorri pra mim. O que posso fazer além de retribuir? Esqueço o frio. E sorrio.

As águas da chuva escorrem por um fio. Eu desaguo num amar. Sou rio.

Mesa de bar(celona)

I

Tem a cor do carvão e sinto que está em chamas por dentro. Parece estar atuando, o discurso sempre incendiado (ou incendiário?). Perguntei se era ator e ele disse que era "ator da vida". Usa óculos que são algo que sempre fazem alguém parecer mais inteligente. Ainda assim, parecia meio óbvio, ou ingênuo. Porém, não me importava tanto o que dizia mas como dizia. Tinha uma paixão de carne crua, língua de ponta cortante, coração de açougue, palavras de corpos desfeitos, estraçalhados...

Senti que temos linguagens diferentes, talvez distintas cosmovisões. Acho que não pensamos igual, nem vemos o mundo da mesma maneira. Mas percebi que temos uma coisa parecida de fogo, ou melhor, de brasa, que quer incendiar e que pede pra ser incendiada. Na verdade, ele parece meio doido, por seu pensamento abstrato. Me fez lembrar, guardadas as proporções, aquele morador de rua paulistano que uma noite na Rua Augusta me disse que o Japão na verdade era Júpiter mas que havia uma conspiração para que não soubéssemos. Eu sempre me sinto muito ignorante e fracassado quando não consigo alcançar um pensamento, ainda que todas pessoas "normais" digam que tal pensamento não tem sentido ou que é loucura. A normalidade é sempre uma incompletude.

Ele, o da cor de carvão e chamas por dentro, tinha alguma história de que se envolveu com o sindicalismo e teve que fugir de seu país porque senão o matavam. Mas não parece alguém que pudesse caber num sindicato.

Tem a cor do café, boca de creme e os olhos de açúcar mascavo. Fala com sabor e seu dizer é tão quente que como que nos queima a língua e não nos permite perceber o quão doce deveriam ser suas palavras.

Parece alguém que não se vende. Mas é apenas alguém que vende. Tem uma loja e vende café. E vender café é como compartilhar sua pátria, a tão humana Colômbia. E ajudar a construir a tão colombiana humanidade.

II

É boliviano, da parte de onde não vem ninguém. Pando é o Acre da Bolívia, insópido, longínquo, selvagem, desabitado. Na verdade o Pando e o Acre são quase a mesma coisa, já o foram de fato, até que fizemos uma guerra, ou revolução, não sei bem, ganhamos, pacificamos, fizemos acordos pagamos algo e ficamos com aquilo que acreditamos ser um "pedaço de nada". Que os de lá devem chamar de pedaço de tudo.

Tem um rostro de gente simples, talvez coubesse num quadro de Tarsila entre aqueles operários, quase negros, quase índios, quase brancos, nem jovens nem velhos. Mas ele não é operário, ao contrário, é o pintor.

Isso de pintar as pontes, rios, casas, naturezas, vivas e mortas, coisas bonitas e agora que tá na Europa e tal. Não não, tem as cores da sua terra. Caucho é como chamam a extração da borracha lá do outro lado da fronteira. Na verdade, não sei bem, borracha mesmo se chama goma em espanhol, talvez caucho signifique seringueira, ou seja borracha mesmo. Então, é isso que ele pinta. Ele pinta o que o capitalismo vê da selva de uma maneira que o capitalismo não vê na selva, um colorido além do monocromático verde do dinheiro e da florestas que os miopes olhos de fora enxergam.

O mais legal de tudo é que ele diz que conheceu Chico Mendes nessa história de pintar as cores de seringueiros e seringuais. Nesse dia ele deve ter apertado a mão do Chico e com isso deve ter ficado até hoje guardado, grudado ou pregado no corpo e coração dele um poquinho desse sentipensamento de ser também um herói da Amazônia, em qualquer lugar que esteja.

III

Equatoriano, de Guayas. Ali na costa do Equador, capital Guayaquil. Elegância, terno cinza que não combina com a cara de indígena. Pareceu o menos interessante dos três.

Os três tem uma associação, não sei porque nem pra quê. Todo mundo tem uma associação hoje em dia. Ao menos na Europa é assim. Parecia mais que tudo um fã e seguidor do vendedor de café colombiano. Repito que não parecia um cara interessante. Mas talvez sua maior sabedoria se guardasse em seu silêncio.

IV
Ele é aposentado. Trabalhou toda vida abaixo d'água. Ninguém totalmente normal pensa em ser mergulhador, eu acho. Nem em ser piloto de avião. Normal é querer trabalhar num escritório. Mergulhar é voar pra baixo, então dá no mesmo. É algum sonho estranho que nasce dentro e fora da gente ao mesmo tempo. Tá, não é a mesma coisa ser mergulhador do Discovery Channel que limpador de submarinos, é mais técnico que artístico. Mais ninguém sobe um Everest ao contrário mergulhando só pra ganhar dinheiro, eu acho. Não consigo deixar de imaginar um submarino cheio de nazistas dentro tomando cerveja e um cara lá do lado de fora com roupa de mergulho esfregando com uma pequena bucha o fundo do robusto veículo. Nem deve ser assim. Mas se foi, é coisa do passado.

Ficou velho, e seu rosto adquiriu rugas quase impressionistas. Sua voz carcomida é quase ininteligível. Já não pode ir tão fundo, nem no mar nem na cama. Então, depois de velho, quem diria, decidiu (ou teve que) submergir. Subiu a superfície definitivamente, não sei se já se esqueceu do fundo do mar ou sente saudades ou se ainda às vezes vai lá encontrar-se com ele.

Depois de velho teve que subir do fundo do mar e decidiu se dedicar à vida de cima. Depois de velho decidiu ser jovem, talvez pela primeira vez ou talvez como sempre foi por toda vida. Quer ajudar índios que não conhece, que vivem em terras que não conhece cercados de mares onde nunca esteve. Se bem que ainda que os dois continentes não se toquem, os mares e rios estão todos conectados. E talvez cada mergulho seja uma conexão secreta, molhada e silenciosa com todo o planeta que chamamos Terra mas que deveríamos dizer-lhe Água.

V
Catalã, de Mataró, uma cidade que me dá a impressão de ser "a capital secreta do mundo" na versão daqui. Suas histórias são tão incríveis que às vezes parece mentirosa, ou contadora de contos, que é uma maneira mais honesta, solidária e divertida de mentir. Mas desconfio que é tudo verdade porque parece que com os anos ela vem abrindo radicalmente os poros da alma. E pode enxergar ventos que às vezes não conseguimos nem sentir.

Pôr uma gota de alma em cada minuto, palavra e atitude é algo que dói ao contrário, é um riso que machuca mas vale a pena. "Tudo vale a pena, se a alma não é pequena". Ela viajou por viajar, sem buscar nada exatamente. Mas encontrou um tesouro. Encontrou a si mesma na amazônia equatoriana. Agora luta para ser ela mesma, nesse organizado caos da próspera e desumana vida das grandes cidades, que não impede o transbordo do oceano de alma índia que vai se descobrindo. E agora em Barcelona estuda kichwa. Parece solidariamente uma forma de compreender melhor a cultura dos outros. Mas, no fundo, é um saudável egoísmo: busca conhecer melhor a si mesma. Busca sua essência que havia sido ocultada, por décadas de sua vida e por cinco séculos de colonialismo.

VI
Ele é brasileiro e gosta de reparar gentes. Escreve. Como o poeta do minha-pátria-é-minha-língua escrever é sua melhor maneira de estar sozinho.

VII
Tudo isso numa única mesa de bar.

Barcelona,
alguma sexta-feira de maio de 2011
O metrô fecha às duas.
Fecha a conta que é hora de voltar pra solidão do lar.

Pessoas que alimentam pombos

"Yo no te pido que me firmes
 

diez papeles grises para amar
 

sólo te pido que tu quieras
 

las palomas que suelo mirar."
 (Pablo Milanés)

O sol se encolhe preguiçoso e deixa sua cor espirrar distraidamente na superfície do Rio Douro. A tarde nunca cai na cidade do Porto, apenas desliza suavemente entre ruas estreitas e odores de vinho. Num prelúdio de noite dominical, a ladeira parece menos íngreme que quando desci e saltito entre as vazias ruas de paralepípedo como se fosse a superfície lunar. Dialogo com o comércio charmosamente decadente, que mesmo fechado me acompanha até encontrar a Igreja lá encima. Solitários, os belos azulejos externos são quem me miram, carentes e sedentos por distraídos olhos turistas.

Ao lado, numa esquina meio suja, onde o lixo no chão se complementa com os feios cartazes de um colorido deteriorado pelo sol, uma velhinha feia alimenta aos pombos feios. Não sabia que elas realmente existiam, a última vez que as vi foi num filme. Mas ao contrário de Macaulay Culkin, não tive medo da velhinha feia. Passando a alguns metros daquela aprazível conjunção de feiúras, ensaiei um sorriso que mesmo mudo ecoava nas ruas completamente vazias. Ela não me viu. Seguiu sorrindo para seus pombos, que saltavam e bicavam desesperadamente os grãos de qualquer coisa.

.......

Passaram meses e outro domingo se vai. A Avinguda Meridiana corta silenciosamente o pacato bairro residencial do Clot, em Barcelona. Os poucos carros passam zumbindo diferente, talvez em catalão. Entre as duas pistas, no meio delas, um grande espaço para pedestres. O céu que amanhecera azulão para alegrar a gente já não faz tanta questão de brilhar, se deixa esbranquicar e vai se apagando em tons de laranja. Seguindo as linhas do asfalto e da visão se confundem viadutos de um velho futurismo com uma abortada e inglória praça semi-abandonada que leva o magnífico nome de Plaça de les Glories Catalans.

E mais um domingo que se deita tranquilamente no bairro, longe do zumzumzum ininterrupto do centro da cosmopolita capital catalã. Pode ser que eles só apareçam nos fins de domingo. Ou que saiam todos os dias, a mesma hora, ou na hora em que podem. Mas eu os vejo apenas aos domingos antes que o sol saia. Talvez porque há menos gente e carros passando ou porque estou mais atentamente distraído para notá-los quando levo essa alegre tristeza melancólica dos fins de domingo. Eles vem em todas formas, não são só velhinhas. Esse era um mano, talvez espanhol moreno andaluz, talvez latino. Casaco verde, talvez adidas, talvez falsificado. Boné também verde, combinando, daqueles meio aba reta, talvez do Yankees, talvez made in china, talvez os dois.

Eu andava em bicicleta buscando céus bonitos e paisagens que já conhecia, sentindo ventos, beijando o discreto frio de outono. Ele, talvez mais novo, talvez da minha idade, fazia algo mais útil: com seu saquinho alimentava pombos, com milho ou sei-la-o-quê.

Tive vontade de parar e perguntar-lhe: porque você alimenta pombos? Todos meus amigos de minha idade odeiam pombos e alimentariam eles apenas com pedradas. Pensei que ele poderia responder com uma grande filosofia e dar-me uma lição de vida, ou apenas dizer algo muito pouco poético, como "porque gosto de pombos e não tenho o que fazer".

Mas não. Segui pedalando o domingo e ele alimentando pombos.

Pensei que os pombos são os únicos habitantes de nossas cidades que não abandonam as ruas aos domingos. E pra felicidade deles, quando as pessoas e seus restos de comida abandonam as ruas, ali estão os alimentadores de pombos com seus saquinhos de solidariedade.

Me livro

Deus me livre!

Virar linhas em papel?

Escrever um livro

pro corpo morrer,

a alma subir ao céu,

e eu continuar vivo?

Friday, July 06, 2012

Ciclos


Um homem tentará ser
constante lua cheia
e sol desbordante
de eterno verão.
Estará fadado a fracassar
Se autoflagelará
na infrutífera busca
da força constante
e da vida imortal

A mulher em sua sábia
fragilidade guerreira
entende seus ciclos:
sabe minguar em seu outono,
ser nova em seu inverno,
crescer em sua primavera,
ser cheia em seu verão.

O homem ainda não entendeu
que seu projeto de infalibilidade
era natimorto.
Algum dia Adão sucumbirá
à sua própria costela.

Deus nasceu mulher
Pariu o mundo em seis dias
Descansou no sétimo
E menstruou no vigésimo oitavo.

Não te amo


Tu sabes que
o que eu amo
na verdade
é o modo insano
com que amas
a liberdade

Saturday, February 25, 2012

Água nica

Em minha veia circulava água
enquanto corria sangue por teu rio
Te encontrei tarde, Nicarágua
quando estendi ao completo vazio
minha limpa e esquerda mão
até encontrar em teu peito frio
meu próprio coração

Não sei bem explicar
porque ainda me dói
aquela palavra de Cortázar
a melodia dos Mejía Godoy
Nicarágua, Nicaraguita
tan violentamente dulce
tão imprudentemente bonita

Pero ahora que ya sos libre
não há quem me prive
de sentir correr meu sangue
e ver teu rio de água pura
encontrar a fertilidade do mangue
e desaguar neste pacífico oceano
onde posso nadar em tua cultura
que me estrecha la mano

Te senti doer muito tarde
hoje te saboreio como fresca fruta
te sinto como uma chama que arde
no calor de minha própria luta

Dolor en lucha

El arte de transformar el dolor en lucha.
La lucha en dignidad.
La dignidad en esperanza, y la esperanza en consuelo.
Y, finalmente, del consuelo reinventar la alegria
Momentaneamente perdida
por la siempre injustificable violencia.

Tuesday, February 07, 2012

Palomitas de color
cuanto va durar
el acaso del reverso
de este amor?

Thursday, January 05, 2012

De Sangre y Chicha

*por Huayna Chasky

Escribimos nuestra historia
en tinta color sangre
y sabor chicha
con este lápiz roto
que corta cuerpos
mientras dibuja sueños
y mapas de futuro
donde las fronteras
son embriagados abrazos
en un infinito circular

Thursday, December 22, 2011

Haicais às estações

I
Chuva de verão
ao molhar todo meu corpo
secou o coração

II
Prima Vera chegou
Com seus lábios de fruta
Cabelos de flor

III
Inverno tem soprado
De seus lábios frios
Beijos molhados

IV
Choveu horrores
Outono alagou as ruas
De folhas e flores

Monday, November 14, 2011

Tierra abortada

*por Huayna Chasky

Pobres semillas,
inocentes hijas de la Madre Tierra.

Pobres semillas encarceladas en laboratorios
hasta ser convertidas en veneno
torturadas por los doctores
hasta perder la fertilidad.

Pobres semillas sin alma,
ex futuras madres,
ex semilllas, ex sí mismas.

Pobres semillas,
inocentes hijas de la Madre Tierra,
esterilizadas por el hombre,
esclavizadas por el capital.

Pobres semillas inocentes
violentadas por el hombre
culpables por el hambre

Me gusta cuando hablas (o Neruda al contrario)

Me gusta cuando hablas porque te siento presente
Y te oigo desde lejos y tu voz me envuelve
Parece que tus ojos indios son solo una pequeña parte
Que componen la armonía de tu naturaleza
Y que tu boca que moja la mía
Es una fuente inagotable de tu generosa dulzura
Y un pozo de tu ternura infinita

Me gusta cuando hablas y estás como cercana
Mismo diciéndome desde lejos, por teléfono
Que me llamas solo porque quería oír mi voz
Mientras yo era quien me moría por escuchar la tuya

Me gusta cuando hablas porque estás como viva
Con todo tu dolor y esperanza de guerrera
Entre tanto odio y violencia
Una sonrisa tuya, media palabra basta
Y estoy feliz, feliz por haberte conocido.

Thursday, November 10, 2011

Canoeiro

Duas canoas que se cruzam num olhar
Você mirava o balanço da minha vida em remo
Eu olhava seu desencontrado olhar
Minha vida passa assim
Nesse vai-e-vem de águas e olhares
Eu pensei se talvez pudesse dizer qualquer coisa
Mas a natureza já lhe susurrava todas minha idéias

Essa pele pra mim quase branca
Pra outros quase morena
E esse sorriso incompleto
De meia boca e alma inteira
Que você deixou escapar
Caiu no rio e perdeu-se nas águas
Sigo procurando enquanto navego
Nas outras canoas que me cruzam todo dia

Me lembro que depois do quase sorriso
Nos olhamos pela última vez
Até o rio seguir seu fluxo
Nossas canoas seus caminhos
E a natureza nos engolir
Para fazer-nos para sempre
Uma parte distantemente unida
De todo seu esplendor

Eu gosto de olhar pessoas
e imaginar universos
dentro de cada um

Mas quando miro a noite
só consigo ver você
refletida em cada estrela

doralegria

um colombiano
tem uma gaveta
quase secreta
semi-fechada
de dor

tem um suave tom de negro
triste e pulsante
em meio a uma aquarela
de sorrisos coloridos

é um mosaico
um retalho
com um desenho triste
em cores vibrantes
tecido com um fio
quase invisível quase irrompível
de inabalável esperança

o colombiano
sangra por dentro
mas por fora
chora com alegria
dançar é sua maneira
de sacar lágrimas
em forma de suor

essa dor de terremoto
que levou gente querida
tem o epicentro
dentro de seus corações
colombianamente carinhosos
e vai gerando sismos silenciosos
não com tanta intensidade
mas que fazem tremer
outros corações
distantes e despreparados
para suportar
tremores de vida

um segundo depois
do coração escutar a dor
e um minuto antes
do corpo se entregar ao baile
o colombiano de dor e alegria
te oferece sua sínteseem um abraço

o Abraço de um colombiano
é diferente
é forte e sincero
mas vem com lágrimas
e dói.
dói por dentro
e conforta por fora
dói o ontem
e sopra o amanhã
que começa agora

Saturday, October 29, 2011

Payasurbano

Triste calle
de la ciudad gris
déjame pintar
de rojo
tu nariz

Vejo em seu olhar
um mar infinito
mas o que será
que você vê
através destes olhos
de oceano?

Gotas de alma

Chove tanto lá fora
os corpos se inundam
e eu me resumo
a uma gota de lágrima
que não escorre
dentro de mim

Onde tu não estás

Encontrei-te em algum beco escuro
Te reencontro sempre onde nunca estiveste
Em sonhos, hortas e balcões de bar
Porque eres a beleza mesma
Que me ensinaram a admirar

Te não vejo em todo lugar em que estás
Não te sinto mas toco tua beleza distante
Te vejo atrás de um vidro intransponível
Não sei até quando poderei suportar
Minha falta de mundo e tua beleza excessiva

Vagabundo, vagamundo vagasurdo-cego-mudo
Nada passa, corre tudo, o tempo voa rastejando
E é sempre tu quem encontro onde vou
Onde tu nunca estiveste nem estarás:
Sonhos, hortas e balcões de bar

Saturday, July 02, 2011

De fuego y vento

Estoy explosivamente sensible
cualquier chispa
me hace fuego
Y el humo que me sale
se expande por el cielo
a molestar los que siguen
fríos o congelados.

Estoy tan a flor de piel
que cualquier soplo
me hace volar
Y en el viento me lleva
a fertilizar la vida
con el polen de la flor
de mi piel, de mi alma
de mi fuego, de mi calma.

Receita para falar de amor

Abra os poros de sua alma
e deixe o amor penetrar lentamente.
Procure um lugar
onde os bosques sejam mais verdes
e os sorrisos mais largos.
Aí é só esperar que ele entra por osmose.

Depois cutuque as nuvens
até que gritem em água
tome banho de chuva
inunde-se até a última gota
e deixe transbordar-se

Monday, April 25, 2011

Despedidas

Há despedidas insípidas, são as piores.
Mas não há despedida totalmente triste.
Toda despedida triste, no fundo,
também é muito feliz.
A tristeza de hoje
é a alegria de ontem
Mas e amanhã?
Amanhã não existe.
Amanhã foi hoje, ontem.
A manhã existe. E persiste.
Viver


Estrada

Quando a estrada
se confunde com a vida
a morte já não dói nada
perto de uma despedida


Metrô

Cadê você?
Aqui do meu lado
Sozinho, calado
Me olha e não me vê
Cadê você,
Cadê você?


Limitando

Cada um sabe
a miséria que cabe
no universo de nós dois


Dormindo com o capitalismo

Foi bom pra você?

Calenques

Mientras murmulla la brisa
ya no entiendo nada
que no sea tu sonrisa
(tímida del monte)
que no sea to mirada
(marina, al horizonte)



Andes

Quiero beber otra vez
de tu sabiduría
de sangre y chicha
que me hace sentir
tan ignorante
del mundo
tan fuerte
como la tierra
tan ebrio
de sueños

Sorria, você tá sendo espiado

Quando a noite cai
as estrelas não me esmagam
preferem ficar lá coladas no céu
pra fazer companhia pra lua
ou então pra ficar espiando
a vida que a gente vive aqui embaixo

Dizem que elas tem olhos de luz
e podem enxergar além da fumaça
que dá ao homem conforto e privacidade
Então mesmo quando não as vemos
porque sujamos o céu
ou porque esquecemos de olhar pra cima
elas continuam nos espiando igual

Também que elas tem a boca dentro dos olhos
e cada vez que nos miram estão ao mesmo tempo
nos enviando um enorme sorriso de luz
que entra diretamente no coração
de quem mira pra elas com olhares e sorrisos

Quem olha muito pra elas o coração cresce
aí no dia que morre a pessoa
o coração sobe pro céu e vira luz grande
Luz que nos fica espiando o tempo todo
pra ver se consegue entrar em mais corações
E que aqui de baixo chamamos de estrela

É estranho porque quando a noite cai
a estrelas ficam presas lá em cima espiando
a vida que a gente vive aqui embaixo

ê vida

A vida é dura
mas ela dá a todos
a oportunidade de nascer
uma vez
sem saber disso

Pra que quando
descobrirmos
haja sempre uma criança
que por não saber de nada
não sabe nem que a vida é dura

As crianças estarão
sempre
por todos os lados
correndo pulando
com olhos curiosos
risos sem pudor

Pra nos roubarem
um olhar e um sorriso
e nos ensinarem
que sorrindo
a vida é mole
é fácil
é boa
é leve
é jogo
é dança
é rima
é linda
é vida!

ê vida...

Saturday, April 23, 2011

Izquierdo

Essa vida de gauche,
às vezes,
dói. Dói doidamente.
Mas a gente mente
a dor que sente.
E nos acostumamos
a mentir
em sorrisos
a dor de todos
nós

.........................

Calle Capitalismo


Tô sentado
na beira
pedindo carona
pra quem vem
na contramão

..........................

Executativo

Pensei que podia
ser informal
de terno
me tornei um formal
eterno
deixei de ser normal
e terno

Tuesday, April 19, 2011

A manhã de amanhã

Já é tão tarde que é quase cedo.
Tarde demais pra dizer adeus,
muito cedo pra desejar boas-vindas.

Cheguei cedo pra ver seu sol nascer
mas você chegou bem depois
que meu sol se pôs
Já é noite.
Amanhãsereu.

----------------------------------------
Amanheceu
e amanheci com
o amanhecer
Amanhã
amanhecerei
a manhã sereia
amanhã serei
amanheceria
a manhã seria
amanhã ser eu

Sunday, March 27, 2011

Cientista jovem louco (num mundo onde os normais constroem bombas atômicas)

Inventei uma lente
que faz ver diferente
é tão transparente
que faz enxergar o evidente:
o salário indecente
o poder que mente
o povo descrente

Mas de tão transparente
a lente reflete a gente
faz ver o sorriso inocente
o olhar eloquente
o abraço latente
e o amor resistente
...
Sou cientista charlatão
mas não contem pra ninguém não
que é tão transparente a lente que inventei
quanto a lã do vestido do rei
mas não foi usada na roupa do nobre
minha lente tava nos olhos do menino pobre
que gritou que o rei tava peladão

Na verdade não inventei nada
abusei do efeito placebo
vendi para um velho e um mancebo
minha lente propagandeada
Eles viram muitos problemas
mas também viram solução
receberam telefonemas
e foram à televisão

Acho que logo virão me acusar
de falsário e delinquente
Mas sei que fui decente
nunca quis a ninguém enganar
e nem com isso dinheiro ganhar
Apenas agi solidariamente
porque ao vender a falsa lente
estava doando um novo olhar

Frio sul

Venta o vento
Chove a chuva
Mas seu Bento
Colhe a uva
............................................................................................................
A tar puesia...

Me dice o hómi que a tar puesia
tem di sê bem costruída
cum pilares grosso que sao as idéia
e cum cemento forte que sao as palavra
e cum cabamento lindo que sao as imagen

Acho bunito os prédio, ajudei a subi muintos
Mas vortei pra casa e pro campo e pra casa no campo
Porque pra eu modestamente as montanha e o mato
é mais bonito que as poesia e quadro todo que eu vi
porque elas só imita o que vê di bonito no mundo

Aí se eu pudesse di sê pueta
eu num queria de construir puesia ingual que prédio
porque me dá muinto trabalio e doía as costa
Queria de que fosse a minha puesia mais faciu
como é as paisaje da minha terra
que já veio fazida assim por deus

La inteligencia desde abajo

No es que yo no entienda lo que dices
Ya lo escuche atentamente muchas veces
y desde varias voces y plumas.
Me parece coherente y inteligente.

Pero es que pisando donde pisé
Aunque la inteligencia me permita comprenderlo
Mi sensibilidad no me deja aceptarlo

No es que yo sea tonto, soy sensible
Y me parece que el verdadero tonto
no es el que no comprende algo,
sino el que entiende sin sentir
Pues este sí no ha entendido nada

......................................................................

Hombres sin super

Es que nos gobiernan los superhombres,
nacidos en Krypton pero creados aquí.
Tienen mucho poder en sus palabras
y saben mucho de casi todas las cosas.

Ellos buscan crear otros superhombres,
que puedan ser tan sabios y poderosos
para seguir gobernando y mandando.

Solo que los superhombres son tan super
que no son como la gente.
Saben todo de casi todo.
Solo no saben lo que sabe la gente.

Dicen que tenemos que aprender con ellos.
Creo que ellos que debían desaprender con nosotros.
Porque sería bonito si fuéramos iguales
y pudiéramos obedecer uno al otro
sin nadie tener que mandar.


Saturday, January 15, 2011

Labios

Fue buscando la dirección de tus besos
que encontré las curvas de tus labios
pero me perdí en el laberinto de tu lengua
Ahora camino por callejones sin salida
donde cada paso resuena el sabor
de tu boca callada en la mía


Haiku

Tus labios tan sabios
que me dicen tus deseos
en forma de besos

Saturday, January 08, 2011

Timor sem temor

Não escuto, Timor
minha língua em ti abafada
Mas pude sentir tua dor
quando o inimigo te açoitava
Hoje não vejo rancor
manifesto em sua mirada
E entendo todo esse amor
que vejo em tua face libertada


Haicai lusófono a um parente distante

Eu beijo Timor
com lábios brasileiros
Tua língua calada

Céu dos bichos



Deve haver um outro lugar
onde vocês irão se encontrar
e terão toda liberdade e carinho
que muitas vezes eu não pude dar

E nesse lugar deve haver um caminho
em que quando eu também me vá
nos encontraremos um pouquinho
pra trocar carinhos e brincar

Mas acho que no mesmo céu não iremos estar
Porque se Deus for justo como dizem ser
reservará um céu muito melhor para vocês
onde esteja reunida toda paz e beleza
e os animais sejam os verdadeiros reis
porque em vida confiaram no ser humano
e nunca se acharam melhores que a natureza

Chegando aí agradeçam a Deus
pelas maravilhas que ele fez...
Brinquem com retalho
durmam no orvalho
façam tudo que eu não deixei
E vão procurando um atalho
pra quando eu chegar de uma vez
me encontrar rapidinho com vocês

Friday, January 07, 2011

Españolizando...

Mundo

Yo no creo en fronteras
que separan en países
la humanidad que es una

Pero no quiero romperlas
sin sentirlas o entenderlas
Yo voy a transcenderlas
sin guerras, con poemas

No quiero un país para mi
quiero todas las patrias
pues solo siendo todas
no tendré ninguna


Caminemos juntos

Compañero, en algún momento del camino te perdiste.
Porque ahora que todo sabes, nada sientes.
¿En qué cruce te habrás perdido?
¿Te acuerdas?

Nunca llegarás a ningún lugar
si no te acuerdes porqué empezaste a caminar.
Tu sensibilidad quedó por el camino.
Pero no la encontrarás donde la perdiste
y sí donde por la primera vez la encontraste.
¿Te acuerdas?

Vuelve, vuelve todo.
Al pequeño pueblo,
donde el niño, entre risa y lágrima,
te pedía un abrazo y un trozo de pan.
¿Te acuerdas?

ECOS DE UNA COLOMBIA

Al pié de la casa me siento
Tomo mi asiento
aprovecho el momento
escucho tu acento
tu cruda poesía la siento

Al entreabrir de tus labios
oigo consejos sabios
cuando estás a contar la vida
pero pareces cantar la vida

Cuando me siento
Cuanto te siento
Tu acento


MIRADAS COLOMBIANAS

Mi pasión por ti, Colombia,
empezó por las sonrisas de tus gentes
Me cautivaron las lagrimas luchadoras
de tus rostros auténticos
Pero lo que me enamoró
definitivamente
fueron los ojos
grandes, profundos y seductores
de tus mujeres.

Pero esta autenticidad
negaste conocer al mundo
Al presentar en los concursos
tus musas artificiales
Y que niegas, sin darte cuenta, a ti misma
Al construirte como una patria
en que hablan armas
de hombres
Mientras callan las miradas
femeninas

Colombia, deje hablar los ojos de tus mujeres
Aunque todo el mundo te mire mal
Serás siempre grande, profunda y seductora
Colombia, ¡eres los ojos de tus mujeres!

Sunday, December 19, 2010

Sentido

Sinto muito
por não sentir muito.
Não fiques sentido.
Tudo que tens sentido
não tenho sentido.
Tudo que tenho sentido
não tem sentido.

Esquerda

A gente se defende.
Aqui ninguém se rende,
ninguém se vende.
Mas ninguém se entende.

Saturday, December 18, 2010

Terrorismo poético

Na Terra
ninguém vai ver
sua guerra

Em Marte
ninguém vai ver
sua arte

Saturday, December 04, 2010

Atriz amadora

No teatro ela inventava mil amores.

No amor, inventava mil teatros.

Tuesday, September 14, 2010

Haicais em série

Produção em série
Faço haicai de qualquer cor
Desde que seja preto


Certezas incertas
Fazem saltarmos janelas
Com portas abertas


Riso de criança
Esse espelho do futuro
Sopro de lembrança


Bóia um corpo torto
é o homem, porém, quem vive
e o Mar que está Morto


Aqui, tudo em cima
No meio de saco cheio
Embaixo vem rima


Eureka! Eureka!
Não coube grana no bolso
Leva na cueca


Queria poder
Ter o poder para poder
Querer-te, phoder


Isso de colocar
sílabas dentro de linhas
é que vai me matar

Friday, September 10, 2010

Século Vintedois

Era jantar de aniversário do diretor de métrica, homem dos mais rigorosos da firma. O assunto da mesa não poderia ser outro, o escândalo da semana: as câmeras de vigilância haviam flagrado o estagiário que manejava a máquina de mixagem de versos lendo no banheiro uma espécie de ipad arcaico, feito de papel. Nele havia poemas de um tal Edgar Allan Poe, supostamente poeta independente: haveria escrito sozinho os versos!

Dada a complexidade dos poemas o chefe de repartição logo concluiu que seria impossível aquilo ser feito por apenas um homem e fora da escala industrial. Talvez houvesse sido produzido por uma empresa da pré-modernidade, já que lá pelo início do século 21 ainda adotavam esse tipo de produção. Estranho era o fato de aquilo ter sido preservado depois de tanto tempo. O jovem, gaguejando, não soube explicar-se. Começou a suar frio. Após ler algumas linhas o chefe lhe devolveu o objeto: “pode ficar com isso, meu jovem, não tem a menor qualidade”.

O estagiário respirou aliviado enquanto guardava seu arcaico ipad. Eis que deixou cair um papel bem amarelado que apresentava finas linhas azuis paralelas e simétricas. Os olhos do chefe se arregalaram, tinha certeza estar frente-a-frente com um subversivo: estava escrito, em tinta, palavras organizadas em forma poesia. Chamou imediatamente a segurança. Diante da gravidade, o caso foi levado à alta cúpula da Poems Inc. O presidente da empresa não só demitiu imediatamente o aprendiz como encaminhou o sujeito à polícia. O caso era sério, descobriu-se que apesar da inocente aparência o jovem pertencia a uma organização criminosa que produzia poemas individuais assinados com nomes falsos e os distribuía clandestinamente. O marginal está sendo mantido incomunicável e responde a processos por formação de quadrilha, exercício ilegal de profissão, concorrência desleal e falsidade ideológica.

Todos ficaram realmente chocados com o fato de que ali dentro da firma poderiam conviver com um desses terroristas literários que tanto falam a imprensa e a polícia. Ora, imaginem se todo mundo (leia-se: qualquer um!) resolve escrever poesia por sua própria conta e distribuir por aí! Obviamente, aconteceria uma banalização absurda e uma queda de qualidade dos poemas. Gente sem formação profissional nem senso de responsabilidade prestando esse serviço tão vital para o bem-estar social. Logo surgiriam hordas escritores sem técnica atentando contra os bons-costumes, rompendo métricas, quebrando rimas e repetindo essa ladainha de que poesia é arte. E como viveriam eles que estudaram com tanto afinco se as empresas de poemas começassem a falir simplesmente porque agora qualquer um poderia escrever poesia se bem entendesse?!

O diretor de rimas tentou mostrar indignação:

- Deus me livro, digo, Deus me livre...

Não conseguiu esconder o pavor por cometer tal deslize. Poderia ser acusado de subversão. Mas felizmente nenhum dos presentes sabia o que significava a palavra “livro”. A terrível falha, que quase o entregou, passou apenas como um erro gramatical. Menos mal.

O chefe do departamento de temáticas amorosas, um gordo sentado ao seu lado, cochichou em tom profético: "Já não se faz poesia como futuramente".

Friday, September 03, 2010

Haicais selecionados*

Tá chovendo horrores
O outono alagando as ruas
De folhas e flores

Quando a noite sai
Eu vejo estrelas que sobem
Poeta que haicai

A vida em resumo
Vai do meu primeiro amor
Ao dia em que sumo

Nessas poucas linhas
Universos, multiversos
Histórias minhas

Teu sorriso eu verso
Tão disperso, tão impreciso
Teu verso, eu só riso


*Publicados no livro Das Palavras, da editora Guemanisse

Tuesday, August 31, 2010

Serenata

A chuva encerra
seu secreto balé sensual,
cantarola no telhado,
desliza pelo rosto,
deixa o gosto do passado
e no cheiro da terra
descansa imortal

Sunday, May 30, 2010

O guarda-sol se põe
E chovem guarda-chuvas
As uvas colhem gente
A gente come terra
A guerra cria vidas
A bomba se evapora
Agora o tempo passa
A massa se apavora
A massa esquenta ao fogo
E o fogo acaricia
O dia que lamenta
E inventa uma razão
Pro vão inevitável
Que a estável noite impõe
Pois quando chovem guarda-chuvas
O guarda-sol se põe.

Monday, May 03, 2010

A escola pra mim foi uma prisão
e a prisão foi uma escola
saí da escola que me reprimia
para a rua que me libertava

Por ser tão livre
voltei às grades da opressão
Mas o homem que me prendia
que me agredia na escuridão

Não sabia que cada golpe
Me inchava a cara e o coração
Se lá não morri, me fortaleci

Aprendi a guardar ódios
e transformá-los em sonhos
de libertar também ao que me oprimia
Fui tomado por uma vontade
de pagar cada soco e insulto
com afagos e poemas

Passei a escutar o que diz o silêncio
a acostumar-me ao escuro
e valorizar cada raio de luz
a usar a mente para viajar a todo lugar
que meus pés não podiam alcançar

A liberdade não existe
senão como utopia
para alcançar sua plenitude
tive que perdê-la

De modo que, no dia em que
a Justiça me absolveu
a vida me condenou
à liberdade perpétua

Monday, April 26, 2010

Quase

Ela quase transava
Ele quase fodia

Ela quase fiel
Ele quase traía

Ela quase falava
Ele quase ouvia

Ela quase sincera
Ele quase mentia

Ela quase chorava
Ele quase sorria


Ela quase acordada
Ele quase dormia

Ela quase explicava
Ele quase entendia

Ela quase confessava
Ele quase assumia

Ela quase pensava
Ele quase sentia

Ela quase viva
Ele quase morria


Ela quase amava
Ele quase sofria

Monday, April 12, 2010

Deus
Disse não
Ao cristão

O cristão
Disse adeus
Pra Deus

Sunday, March 28, 2010

Haicais em homenagem

I
Mágico das vírgulas,
é só teu texto, fantástico,
Que me sara, mago,

II
Malandro samu-
rai: jeitinho brasileiro
cabe no haicai

III
Um verso profundo
é a parte que me cabe
deste latifúndio

IV
O mundo é um moinho
De Cartola ou Dom Quixote
Do sonho, mesquinho

Saturday, February 27, 2010

Não é brincadeira:
passaria a vida inteira
com vinho de primeira
uma casa na beira
um barco de madeira
e um balanço de cadeira

Tuesday, January 05, 2010

AsSALssino

O Mar Morto
por excesso de sal
o homem morrendo
de hipertensão arterial

Friday, December 04, 2009

ê
foi
um feito
subir tão alto
pra respirar esse ar
r...a...r...e...f...e...i...t...o

Monday, November 30, 2009

Eu queria quando eu era...

I- Jovem
Poupar livros,
gastar utopias,
ganhar dinheiro.

II- Adulto
Poupar dinheiro,
gastar livros,
ganhar utopias.

III- Idoso
Poupar utopias,
gastar dinheiro,
ganhar livros.

Medo

Saí pra tomar um ar
esqueci o medo em casa
desbravei o mar
cheguei a Togo
pisei em brasa
brinquei com fogo
voltei pra casa...

Achei que ainda era cedo
para reencontrar o medo
mas ele já tava tão velho
que tentei uma fuga
esbarrei no espelho
e vi na cara muita ruga
e no coração um corte
com sangue vermelho
correndo forte

Pensei ter sorte
que de todos medos
só temia a morte
que me corria entre os dedos

Monday, November 16, 2009

Drive True

Dirija seu destino
Escolha sua verdade
Eleja seu número
Peça pra viagem
Mate a sua fome
Recicle sua embalagem

Tuesday, November 03, 2009

Terraço

da sociedade.
dos tédios
no abstrato
mas desabou
dos prédios ,
no concreto
que cresceu
Esta cidade

Calçada


.......................................

Ironia
Todas as palavras
cabem no universo
e o universo cabe
em uma só palavra

................................

A poesia
está todo dia
no livro
na rua
na vida

analfabetos
atropelados
morrem

ninguém quer
ler
ver
viver

Wednesday, October 21, 2009

Ermitão

Aqui do alto eu rio da sociedade
de um lado eu vejo o rio
doutro miro a cidade
de um lado sopra vento frio
doutro venta a saudade

rio-me dos carros parados em fila
dos bois sendo tocados pelo peão
do vai-vém vagaroso da vila
do corre-corre da estação

vejo o abrir da porteira e do sinal
a buzina do carros e dos leiteiros
e assistir os diferentes dias inteiros
faz ver que viver no fundo é igual

daqui de cima eu rio de filosófos e profetas
e lá em baixo eu miro em segredo os poetas
de um lado vejo Caeiro tocando o rebanho
doutro Andrade olhando a paulicéia
pela fresta espio Marília tomando banho
e assisto ao atropelamento de Macabéa

daqui de cima contemplo
as gentes que fazem colheita
a gente que vai para o templo
o fanatismo da seita
o barulho cidade que se deita
o puro despertar do campo
a correria corriqueira do trampo

Do alto eu brinco de Deus
de longe digo adeus
aos capiaus que querrem ir pra cidade
aos urbanos que sonham morar na roça
mas não têm coragem de largar
a vida da sociedade
ou a boléia da carroça

E vivo sozinho a observar
entre um lado ou outro
prefiro estar noutro
Aqui em cima é meu lugar

Hai cais 2.0

Já caem as folhas
Todo outono pede um vinho
Então saque as rolhas

...............................................

Só mesmo um otário
para buscar uma rima
no dicionário

Dark Angel

Escrever um poema
no papel higiênico
de madrugada
no banheiro
só pra não esquecer
o que queria dizer
pra ela amanhã
e nem acender a luz
pra não acordar
o seu amor
que dorme
angelical

Um, dois

Um dia, duas pessoas
Uma chuva, dois guarda-chuvas
Um caminho, duas direções
Um gesto, dois movimentos
Um pra lá, outro pra cá
Dois passam onde
Um só cabia

Uma troca de olhares, dois sorrisos
Um acontecimento simples, duas estrofes
Um poema.

Thursday, August 27, 2009

Chapare

Depois de tanto tempo ver todo esse espetáculo de novo fez minha alma flutuar. Sentir outra vez aquela melodia silenciosa enquanto o carro deslizava sob o asfalto entre as montanhas verdes enfrentando a neblina que oculta seus mistérios. Sentir outra vez meu espírito tocar o céu me fez reviver aquele tempo de intensidade que havia virado apenas uma memória.

Chegando ao povoado vi que aquela velha casa de um amarelo suave já não estava ali. Ao canto do que se tornou um restaurante, tocava charango um velho. Levava o chapéu e toda a vestimenta tradicional dos indígenas locais, mas se notava a mestiçagem do seu rosto e o sotaque do quéchua que saía de sua garganta débil a acompanhar os acordes trêmulos de seu charango.

Fui perguntar o que havia passado com Dona Francisca, antiga moradora da casa amarela. Na verdade o que me movia não era o interesse pela simpática senhora que me vendia as garrafas de chicha que alegravam nossos fins de semana. Estava fascinado com a imagem daquele índio postiço que ao mesmo tempo parecia carregar tamanha sinceridade. Minha ânsia de rever aqueles velhos amigos se esvaiu por um momento de obsessão nessa figura taciturna. Foi difícil arrancar-lhe as palavras, mas me disse que não era dali, que vinha de outro país, não importava qual, mas que havia escolhido viver assim: simples, devoto da natureza e das tradições que não lhe ensinaram o berço e sim a vida.

Sua voz carcomida pelo tempo se fazia de difícil compreensão devido à grande quantidade de folha de coca que levava em sua bochecha para vencer o cansaço do dia de trabalho no campo. Sua cara enrugada escondia qualquer expressão de emoção. Dizia que quando tinha mais ou menos minha idade um senhor quase centenário lhe contara uma história sobre o encontro de dois gigantes da natureza. Conta que durante sua caminhada, lá do alto do seu esplendor, as montanhas andinas contemplavam como um condor o avanço dum tapete verde e intenso. Do outro lado a Amazônia se estendia correndo suave como um rio e assustou-se ao olhar para cima e ver que as montanhas estufam seu peito imponente. Ali no centro, comprimidos entre gigantes, a gente temia o conflito que poderia ser o fim para eles, tanto física como espiritualmente, já que o duelo entre gigantes traria o desequilíbrio que a natureza não poderia suportar.

E que cada dia viam avançar com mais intensidade um em direção ao outro, não podiam notar raiva ou qualquer sentimento de nenhuma das partes, só sabiam que havia uma força maior que dirigia tudo aquilo e que teriam que respeitá-la. Pediram ajuda dos deuses para que tudo acabasse bem e pudessem outra vez ter seu lar. Fugiram dali esperando o choque e se refugiaram à margem do rio.

Pensaram que em todo esse tempo de cultura e tradição em harmonia com a Pachamama já pudessem entender o que queria a terra mãe. Mas a surpresa foi grande quando viram chegarem-se tão perto os dois e que não houvesse nem um sinal de temor ou de inveja, puderam contemplar num camarote o cordial abraço de gigantes que durou um breve instante enquanto os dois terminariam por descansar suas forças em tranqüilidade, como um pós-orgasmo natural que os deixaria para sempre paralisados juntos nesse leito esplendoroso. Ali encontrariam a paz dos apaixonados, à sombra das árvores, ao conforto das montanhas.

Enquanto se abraçavam o verde grudava à pele da montanha e a floresta era levada às alturas pela inclinação de seu companheiro no mais sincero amor da natureza. Terminaria o centenário senhor dizendo que “o que o poder da natureza criou, o homem nomeou Chapare.”

Ainda jovem refletiu sobre as palavras desse senhor centenário e pensou porque ele mereceria menos crédito que uma televisão. Pensou nas tantas lendas e histórias que escutara esses tempos e percebeu que a verdade nada mais era que uma questão de crença. E que aquele lugar teria mais energia mais vitalidade que qualquer lugar onde o homem poderia construir seus prédios e chaminés que ocultariam o brilho das estrelas.

Não pude entender porque o senhor se levantaria de maneira tão bruta, antes de terminar de dizer sobre como havia sido sua chegada e adaptação ao lugar. Deu-me as costas e seguiu dedilhando seu charango uma canção tradicional. Antes que ele se perdesse entre uma estranha neblina que nunca havia estado ali antes, pude perceber a ponta da tatuagem que levava no pescoço, ninguém além de mim poderia ter aquele desenho do puma com seu olhar penetrante. Vi que mancava ligeiramente da perna esquerda e me lembrei das seqüelas do meu acidente automobilístico no ano passado. Acordei na minha cama suando e assustado. Me causou uma certa confusão perceber que aquele velho na verdade era eu.

Wednesday, June 10, 2009

Ecosol

A economia solidária não é nenhuma novidade. Ela remonta aos primórdios das relações humanas, em que pela necessidade ou fraternidade trocavam-se produtos ou dividiam-se tarefas entre pessoas, famílias e comunidades. De lá pra cá, o mundo deu muitas voltas. Tantas voltas que hoje parece ter virado de cabeça pra baixo. Se houve intenção de se construir um projeto de humanidade, ele parece ter fracassado. Um fracasso talvez imperceptível aos raciocínios lógicos dos mais bem pagos executivos engravatados. Porém um olhar mais atento ao redor não pode negar que a desigualdade, a exclusão, a exploração estão em todos os cantos.

Mas então como pode tudo isso durar? Como pode isso tudo ser normalmente aceito, mesmo por aqueles que sofrem com esse sistema? Ah, vão dizer que a culpa é da mídia. A culpa sempre recai sobre a mídia! Vão dizer que a televisão aliena e que os jornais estão todos ligados a grandes grupos endinheirados que defendem sempre seus próprios interesses.

Pode ser. Mas vou lhes dizer que Adorno, pra muita gente, não é nada mais que enfeite. E que enfeite pra alguns é fonte de renda e cidadania, através da economia solidária. É pela cooperação que muitas pessoas descobrem que nesse mundo cão é possível se libertar. “Liberdade é uma palavra que o sonho humano alimenta e que não há ninguém que explique e ninguém que não entenda”.

Já Neoliberalismo é uma palavra que destrói o sonho humano e que há quem tente explicar e quem tente entender através da verborragia acadêmica. Porém não é mais do que uma palavra que ensinam na escolinha de ensino supostamente superior. A verdade é que se perguntarmos pra galera, certamente a maioria não vai saber o que significa essa famigerada (maldita) palavra, embora todos sintam seus efeitos. Isso eu aprendi com Dona Antônia, negra de origem popular, líder comunitária, lutadora, praticante de economia solidária, intelectual (sabida) formada pela escola da vida, doutora honoris causa (entendida...) em sociologia (...em matéria de saber como funciona esse mundo doido).

E se é pra falar em etmologia palavras difíceis economia é conhecida popularmente como “gastar pouco”. Mas acrescentado uma palavra temos economia solidária, que pode ser uma oportunidade de gerar renda e independência. Porque não despedir o seu patrão?

Ah... se alguém acha que faltou alguma palavrinha nessa sopa de letras... bom, solidário todo mundo sabe o que é, ou melhor, todo mundo acha ou diz que é, mas agente sabe bem que na prática nem sempre é assim né? Solidariedade é uma palavra mais difícil de dizer, mas mais fácil de entender que egoísmo. Afinal você entende melhor o amigo que te empurrou ou o que te ajudou a levantar?

Mas pense bem... se você fala de egoísmo olhando pros outros, porque não pensar em solidariedade olhando pra si mesmo?

Saturday, January 10, 2009

Verde

O céu tinha o mesmo cinza
dos prédios que o sujavam
já nao podia distinguir
onde começava a poluiçao

Quis correr até a montanha
para ver o que havia do outro lado
Antes de chegar ao topo caiu a noite

O céu tinha o mesmo negro
das rochas que quase o tocavam
já nao podia distinguir
onde começava a escuridao

Despertaram os primeiros raios de sol
e ao olhar para o outro lado

O céu tinha o mesmo verde
das árvores que lhe beijavam
e já nao podia distinguir
onde terminava a floresta

Monday, July 21, 2008

Universo

Quem nunca rimou
que escreva o primeiro verso

Tuesday, June 24, 2008

O último sopro da paixão

Ele não esperava naquela idade, depois de tantos anos, encontrar a paixão novamente. Depois de ver e viver de tudo. De nascer, engatinhar, andar, despertar a puberdade, virar homem, amadurecer, ter filhos, envelhecer, e ficar viúvo. Pensava que só lhe faltava uma coisa na vida: Morrer.

Eis que encontrou-a algum dia em suas caminhadas matinais rumo à padaria, andando cabisbaixa com um olhar perdido e amedrontado. Foi dos mais tímidos toda a vida mas quando se está idoso já não importa nada, ganha-se o álibi para falar e fazer qualquer coisa que, na pior das hipóteses, sentem pena do velho senil. Foi assim que chamou-a e começou a falar-lhe no meio da rua. Ela correspondeu cordialmente e dali nascia uma linda relação de cumplicidade, nome genérico desse remédio que se chama amor.

Não precisava mais de sexo. Uma vontade que se deixa de sentir não faz falta. A velhice leva alguns prazeres e traz outros. É preciso reinventar as formas de senti-lo. O gozo da idade avançada é ilibidinoso, delicado e diferente. Ele necessitava mais que tudo de uma companhia fiel. Precisava de carinho, muito mais de dar do que receber- e ela, o contrário. A timidez veio intrínseca na personalidade dele e fez-lhe desperdiçar oportunidades de falas e de carinhos que agora despejava sob sua nova amante. Gastava horas falando a ela sobre tantas coisas, coisas da vida, coisas que nunca teve coragem de dizer. Suas histórias de uma vida longa, discreta mas bem vivida. Ela ficava quietinha, escutando com seus olhinhos arregalados. O teatro da vida finalmente oferecera-lhe a oportunidade de apresentar seu monólogo. Num palco de areia com cenário natural de pôr-do-sol e lotação máxima: só ela tinha direito de assistir a peça.

Apesar da beleza do mar e da praia ela estava quase sempre mirando ele, pedindo com o olhar mais um carinho. Ela sempre foi amiga da natureza, nasceu e cresceu abraçada com a liberdade. Acostumara-se à beleza do mundo e agora no fio de vida que restava queria contemplar a graça humana e o carinho que nunca ninguém lhe dera antes. Ele, só depois dos 80 anos foi perceber verdadeiramente o sabor do vento na cara. Na praia, os dois corriam atrás um do outro e outro do um, brincavam-se e rolavam na areia. Faziam por eles mesmos, porque assim se sentiam felizes. Nem percebiam que ofereciam aos que passavam uma lição de vida. Multiplicavam sorrisos e comentários. Era belo aos olhos alheios ver que mesmo com a idade avançada pode-se continuar a viver com a intensidade, espontaneidade e alegria de uma criança. Todos que lá no calçadão os avistavam podiam entender que haviam nascido um para o outro.

E eles não se diziam, entretanto sentiam no fundo que o que o único desejo que tinham era viver juntos até o fim dos dias. Ou até o primeiro deles ir. Só o pensar de que ela pudesse partir antes dele já lhe estremecia o peito e por isso ele desviava o pensamento. Mas no fundo preferia ir primeiro, porque ela era o último sentido que ele encontrara na vida e também porque sabia que ela superaria rápido e ainda poderia ser feliz com qualquer outro que lhe oferecesse cama e afagos. Ele pensava nela e ela não pensava em nada, apenas vivia. Ele tinha muito mais anos vividos, mas ambos já haviam há muito entrado na curva descendente da vida.

O dia tinha nascido há pouco e ela estava deitada no sofá com a mesma cara séria que parecia explodir em sorrisos por dentro. Ele desligou a televisão para ouvir o silêncio. Sentiu que sua hora se aproximava. Enquanto juntava forças para suas últimas carícias ainda disse baixinho e ofegante que ela fora a mais grata surpresa de sua vida. E que ela era na verdade não só companheira, mas sua mãe de morte. Foi há pouco mais de 9 meses que se conheceram e agora aproximava-se o fim da gestação. Pra que ele pudesse nascer para um outro mundo, para o além-vida, que, afinal, devia ser o mesmo lugar de onde veio.

Ela parecia emocionada e entendeu que aquele era o último momento juntos. Lambeu seu rosto e disse: AU-AU. Ele imaginou ou deduziu que ela tentava com toda sinceridade dizer na língua canina “eu te amo”. Ou “eu te amei”, já que era o princípio de seu fim. Ou quem sabe quis falar “eu sempre te amarei”. Antes que pudesse esboçar algum raciocínio filosófico ou gramatical sobre passado, presente e futuro sentiu suas pálpebras pesaram. A vida passou num flash. Fechou os olhos e dormiu para sempre.

Monday, June 09, 2008

Em fôrma

Tem gente que ama uma fôrma
e tenta desesperadamente
moldar as pessoas no seu próprio espaço
limitado

Tem gente que ama as pessoas
e tenta desesperadamente
moldar uma forma de ilimitar
seu próprio espaço

Televasão insanitário

Bosta
Descarga mental
Sei que você gosta
De telejornal

Saturday, May 03, 2008

Instante Eterno

Futucando aqui me lembrei que já tive um fotolog e pra minha surpresa ele ainda está no ar. Durou pouco mais de um mês. O nome do fotolog era Instante Eterno (que hoje soa quase como uma profecia sobre o destino do próprio flog) e o objetivo era aliar fotografia e literatura. Eis que descobri um escrito que nem me recordava existir e que serviu de abertura para o fotolog. Segue abaixo com algumas adaptações...

..........................................................................................................................................................................

A fotografia queria ser arte. Desafiou a poesia prum duelo de morte: só o mais forte sobreviveria.
Logo se gabou: "A voz do povo é a voz de Deus. E dizem que um imagem vale mais que mil palavras. Seu exército prolixo não será páreo pro disparar de meu gatilho preciso!" A poesia retrucou:

"Surgiste há pouco e queres desafiar a mim?
Sou da humanidade uma tradição secular,
desabafo silencioso dos que preferem não gritar,
consolo da vida, esse sofrimento sem fim ."

O duelo descobriu-se interminável. Cada golpe que sofriam do oponente os fortalecia mais e seus golpes feriam a si mesmos. Era a soberba quem os machucava. Então perceberam que eram arte justamente quando não tinham a pretensar de ser. Viram-se derrotadas por si mesmas. Era a pior das sensações.

Abaixaram a cabeça e decidiram regressar. Já haviam perdido a noção do tempo. As cores do dia se misturavam com as da noite mas não sabiam se o que vinha era a madrugada ou o alvorecer. Caía uma chuva fina e o vento frio que soprava da costa lhes fazia estremecer. Abraçaram-se e voltaram juntos pra casa, contemplando as águas diáfanas e dançando ao som do vai-e-vem das ondas.

Dali em diante resolveram que andariam juntas. Aqui. Sem pretensões, apenas sendo o que sempre foram: sinceras.

Friday, May 02, 2008

Passaporte

"E sei que a poesia está para a prosa
Assim como amor está para a amizade
E quem há de negar que esta lhe é superior?"
Caetano Veloso


Solta da minha mão e vai. Voa leve, peito aberto, num sopro rasteiro donde possa mirar as flores do chão e ainda assim não te olvidar do brilho das estrelas do céu. Voa na simples poesia, na desnecessidade da rima, na liberdade dos versos, na métrica caprichosamente deformada.

Pisa descalça na uva, sente o cheiro da terra vermelha e úmida. Bebe o vinho doce de amor, colhe o alimento que brota do chão. Sente a música do violeiro dos dedos longos, barriga grande e bigodes fartos. Ouve o canto da lavadeira e escuta o assobio dos passarinhos até teu coração bater na mesma sintonia. Ri de si mesma, ri do amigo e do inimigo. Beija o sol, lambe a lua. Cumprimenta a rua, abraça a estrada. Sorri pra liberdade.

Senta na beira do asfalto. Espera se a carona não vem. Cantarola aquela nossa canção secreta pros momentos de solidão. Mas quando o próximo parar, abre-te o coração e transborda a alma. Chega pro canto e divide a cama, faz um esforço e reparte o pão. Preserva a lucidez mas não te esquece de te entorpecer. Conversa com ela e até flerta com ele. Não perde a sedução do primeiro olhar, da palavra inicial, do carinho tímido de todo começo.

O mundo só pesa nas costas de quem acredita ser mais fraco que ele. Esse peso vira pluma se o que te importa é a vontade de voar. Voa em sorrisos de menino, em balões de criança. Flutua no ar, saltando a fogueira e subindo certeira na noite de São João.

Voa por mim, voa pra mim e voa por ti. Porque eu te amo e te quero maior. Mesmo que não te veja, posso te sentir a todo momento. Nas lágrimas sorridentes que escorrem em mim. Nos sorrisos secretos que derramo por ti.

Vive o máximo e se algum dia nossas intensidades voltarem a se encontrar te confortarei em meus braços, pequena. Pra que depois, da palma de minha mão, possas alçar um novo vôo, cuja decolagem seguirei até onde o olhar alcançar. E quando não mais a vir, deixarei contigo e levarei comigo sempre o coração. Cerrarei os olhos e gozarei do imagético, viajarei nos sonhos de tuas venturas e aventuras enquanto sigo meu caminho. Como um cego que imagina a praia enquanto ouve a melodia das ondas e sente o frescor da brisa que sopra do mar.

Sunday, April 13, 2008

Haicais

Chuva de verão
ao molhar todo meu corpo
secou o coração


A vida assim vai
Pois o mundo todo cabe
Dentro de um hai cai

Thursday, April 10, 2008

Três pontinhos

Poesia é a arte de traduzir um universo de idéias em poucas palavras
Poesia é traduzir universo de idéias em poucas palavras
Poesia é universo de idéias em palavras
Poesia é idéias em palavras
Poesia idéias palavras
Poesia palavras
Poesia
...

Saturday, April 05, 2008

Vida concreta

Thursday, April 03, 2008

Eles inflam o peito e gritam a todos:
-Ética!
Eu susurro bem baixinho, só pra mim:
-É titica...

Ética
É ti cá
É titica

Wednesday, April 02, 2008

Carlos

No fim do caminho tinha uma pedra
tinha um caminho no meio da pedra
tinha um caminho
No meio do caminho tinha o povo
No meio do povo tinha um poeta bonachão
que tinha uma rima e não uma solução

No meio da poesia apareceu uma anjo torto
que não tinha nada a ver com a história e disse:
-Vai, Carlos! ser gauche na vida

A vida não chega a ser breve. Mas a festa acabou,
E agora?

Só mais uma dose...

-Que cara é essa, Serafim?
-Mais um dia infernal que chega ao fim.
-Agora o dia já foi, você precisa relaxar e sorrir.
-Tens razão. Preciso de uma dose antes de dormir.
-Dose de qual?
-De Leminski, que tal?!
-Dessa vodka não tenho. Onde posso encontrar?
-Dentro de ti vai achar, a poesia. Não dá ressaca, e alegra o dia!

Wednesday, March 26, 2008

Sumo* (A ti, Marco Antônio)

Em suma,
eu sumo
consumo
sem sumo
consumo indo
consumo vindo
vou consumindo
me consumindo
consumindo
sumindo
sumindo
sumindo
sumindo


*idéia 'adaptada' do poema A Ti, de Marco Antônio (Revista Caros Amigos Literatura Marginal II). Releitura, paródia, adaptação, plágio, chamem como quiser...

Estrela-do-mar

Noutro Klugart

Em tormento errou o nome
chamou calmaria de tsunami
agora padece do verso remoto:
a poesia inundou e lhe consome
Afoga-se num maremoto
de marasmo da mente parada.
Boiar não consegue, nada.
Só nada...
nada, nada, nada
nada
nada
nada...
E nada.

Friday, February 29, 2008

Fofo

Um poema recitei
Recém-tirado do mofo
Ela sorriu e me chamou de fofo
Acho que nunca saberei
Se ela me acha gay
Ou me chamou de gordo

Friday, February 22, 2008

Oda al Miojo (a Pablo Neruda)

Estaba él duro y desnudo
Miraba excitado en la olla,
Su nido de amor,
El agua pura y caliente
Como una virgen
Em luna-de-miel

Sus cuerpos se mezclaran
En tres minutos de placer
Y luego se quedó blandito

Le usurparan el água
Ardió el condimento picante
Que le jugaran sin pedir
Con abuso lo cortaran
Y lo comeran indefeso

Adentro de la boca se fue
A empezar otro camino
Pero este camino terminó
En mierda.

por Alfonso Valdéz

Saturday, January 26, 2008

Resete

Alguma vez algum homem desses qualquer quis mandar em seu destino. Atreveu-se a enfrentá-lo, sob os riscos das mais graves seqüelas. Começou assim, num dia qualquer como esse, num lugar tão banal que não fosse o marco de tal mudança, talvez nem se lembrasse mais. Era sua companhia uma caneta e folhas de papel mas bem que poderia ser a máquina de escrever, sua companheira de outrora, ou mesmo um computador, a detestável máquina que a modernidade lhe obrigara usar. Sentado em alguma superfície pouco regular que fizera de banco, sentiu que finalmente tinha encontrado o timing que almejava. As palavras apareciam em sua mente em ritmo e harmonia espantosos e carregavam uma sinceridade assustadora. Longe dele querer-se comparar ao grande poeta. Mas se foi Fernando Pessoa bem que poderia ser ele a escrever versos que encantassem tantos corações. E por que não? Valeria a beleza mais que a sinceridade?, pensou. Respondeu-se mentalmente que não. E sentiu-se igualado a todos os gênios dos grandes salões e aos poetas secretos do submundo. Deixou escapar um sorriso de canto de boca.
Escrevia com prazer estético nunca alcançado. Em beleza e coerência tudo se encaixava e já vislumbrava o gran finale cristalino em sua cabeça. Preparava-se como virgem para o gozo literário. Entre as linhas finais teve um treco. Pensou de repente se tudo não podia ser diferente. Tudo mesmo. Não só aquela história que escrevia por exigência da empresa, mas a vida. Era cada coisa que lhe impuseram. Se viu marionete num teatro abobalhado, infantil. E aí pensou que poderia ser senhor de si mesmo.
A primeira seqüela sofreria aquele romance, para sempre mutilado, nunca acabado. Estalou os dedos. Fez das folhas monitor; de seu corpo, computador. E se resetou. Num clique.

Friday, January 25, 2008

Barulho infernal

No meio do caminho tinha uma pedra
agora não tem mais
agora no meio do caminho
tem o prédio da Petrobrás

Thursday, January 17, 2008

Prazer escrito

"Não te rias de mim, meu anjo lindo!
Por ti - as noites eu velei chorando,
Por ti - nos sonhos morrerei sorrindo!"
(Álvares de Azevedo)

Queria nessa noite que seus dedos o dominassem. Que passassem desrespeitosamente a escrever, sem sequer ouvir sua mente e arrogantemente ignorando meu coração. Pensou que assim pudessem sair as mais bonitas palavras conectando-se lindamente e divagando sobre o sexo numa plástica tão bela como o abraço de dois corpos nus.

Pensou que assim as palavras enamoradas tocariam os lábios num sopro suave de primavera. Que o orvalho e o suor não mais seriam distinguíveis no lascivo amor da madrugada gozada ao redor de árvores. O toque lânguido das unhas marcasse como tatuagem por dentro da pele, escavando os profundos indeléveis caminhos d'alma. E que aquele piscar de olhos metralhasse fulminantemente qualquer pensamento que não tendesse ao pecado. A língua curiosa penetrasse o âmago dos segredos mais sinceros que haviam sido enterrados junto às promessas passadas. O susurro despertasse o corpo n'alvorada tímida que inutilmente se tenta fazer insossa e se armadilha ao tornar seu medo um charme absolutamente irresistível.O palpitar dos seios em vulcão jorrasse todo aquele desejo guardado sob as sete chaves do pudor. O gemer desavergonhado revelasse ecoasse aos corredores pornográficos das lavouras onde os jovens aprendem o prazer do pecado.O perfume de volúpia quedasse intrínseco nas quatro paredes em que os velhos em seus últimos suspiros trepam vagarosamente rumo ao além.

Queria ele, no fundo, que grito incontido de gozo rompesse os tímpanos daqueles que nessa mesma hora praticam o silêncio sepulcral da trepada secreta. E que todas as faces congelassem ao prazer, de bocas abertas e olhos cerrados, sem conseguir enxergar além da volúpia, o mundo que os cerca.O suor petrificasse se fazendo manto impenetrável às dores e carinhos. O cheiro do sexo bem feito penetrasse intrissecamente as narinas e lhes obstruissem qualquer odor que não fosse de carne e de prazer. E as bocas todas que se calem...não falem e chupem e suguem e comam tudo que o pecado pode oferecer.

Pois só assim, sem sentidos, o poeta não mais ficaria sentido. Nada teria escrito. Guardaria sensações e não palavras sobre amores que nunca viveu.

Angel in the flesh

Alexander J. Springfall

One person impossible to be annoyed
The human unable to be bad
A man that can be good when feel sad
Just to make other people satisfied

Don't be afraid beacuse he's strong and tall
For sure, his heart is bigger than all
My friend is so sensible and kind
Like an angel that fall from above
But in the flesh, heart and mind
To love the life and live the love

I guess he is a feeling, not a crature
He's the love in a package of man
Made by casual beauty of the nature
Or drawn with care by God's pen

Monday, November 19, 2007

Um Homem Chamado Cavalo

O cavalo portou-se feito homem
e pôs-se a galopar, elegante e soberbo
O homem, destraído, nem notou
e seguiu seu caminho, cagando e andando
feito um cavalo

Monday, October 15, 2007

Fracasso

As palavras em tinta jaziam turvas
no ataúde de papel umedecido por lágrimas
que percorriam as curvas sinuosas de seu rosto
a desembocar num mar de reticências
diante da ilha de marasmo espiritual
onde o poeta de sangue estanque
ruminava insípidas metáforas silvestres

por Noutro Klugart

Thursday, June 28, 2007

Álcool no sangue
sangue na veia
veia no pulso
pulso cortado
corte sangrando
sangue de álcool
álcool volátil
se esvaindo
feito éter
à eternidade

Saturday, May 12, 2007

Trago um trago
em gole e angústia
discurso como gago
na falta de astúcia

barba por fazer
cabelo a crescer
olhar perdido ao nada
buscando uma estrada

estou mais magro
me acabo em trago
me consumo em fumo
minha vida em resumo

tudo tão certo
exceto a distância
o homem esperto
esvaído em ânsia

meu mundo em escarcéu
sem o conforto do teu riso
não consigo alcancar o céu
nem me conformo em tocar o piso

Saturday, December 30, 2006

Lápide

Sempre faltou-me muito pragmatismo e um pouco de memória. Não sei se mudei minha vida ou se foi a vida que me mudou. Talvez ambos. Sei que está diferente, e tinha de estar depois de tanto tempo. Vou seguindo o caminho que acredito mas não sei nem se acredito em mim mesmo. Procuro paixões vibrantes que não são minhas e acho um vazio. Conformo-me com o mais ou menos em tudo e o tudo em nada. As palavras bonitas e complicadas não mais me excitam. Prefiro a rima fácil, a simplicidade poética que parece mais sincera e parecida com a vida, pelo menos com a que eu almejo ter.

Após uma ressaca física superada, sobra-me uma ressaca moral não curada. Deitado e abobalhado, ora olho fixamente para o nada ou observo a TV sem prestar nenhuma atenção, ora tento reconhecer os pedaços de eu no espelho da sala. O som baixinho toca "Stop Crying Your Heart". Mas não sei se o meu coração chora, sangra ou vomita. Sei que explode silenciosamente.

A louçaa suja, mesa cheia de copos revirados, cinzero de cigarros fumados pela metade. Meu corpo estirado no sofá, imóvel, parece pesar mais que o mundo que me acolheu com socos e pontapés. Adentro, a cama desarrumada e o livro que continua escancarado numa página que ainda não li. Mas a mulher de ontem não mais está lá. Foi-se, não disse adeus nem seu nome. Também não fazia questão de saber este ou ouvir aquele. E assim segue.

A caneta é meu consolo, o papel, minha ruína. O lixo vai se enchendo de folhas amassadas. Ah! Essa carreira de escritor fajuto está me transformando em um bom jogador de basquete. Morgado escrevo, empolgo, releio, detesto, rasgo, amasso e arremesso no lixo. Enquanto isso, as pessoas fazem as coisas mais diferentes nos lugares mais distintos. E eu aqui no nada fazendo nada. Sozinho. Estranhamente satisfeito.

Friday, November 10, 2006

Anjos atrevidos

Ah, quanto atrevimento
desses meninos pretos e pobres
de botar-me o dedo na cara
e fitar-me com raiva
olho no olho
de cobrar-me algo por eles
pedir-me um minuto de atenção
sair das calçadas
e subir no palco
obrigar-me a enxergá-los
espancar-me com a música
metralhar-me com sua arte

Mas que ousadia desses moleques
tirar-me lágrimas
dessa face robusta
roubar-me um sorriso
amarelo e emocionado
de quem acaba de tomar um lição de vida
quem são eles pra me tratar assim?
À mão desarmada
apontada pra minha consciência

Tamanha audácia
esse corpos amontoados
como mortos
ao choro de mãe
e o silêncio doloroso
interrompido pela vibração dos aplausos
palmas por sentir
sentir-se derrotado por eles
pretos, pobres, pequenos, frágeis
mostrando-se gigantes
muito maiores que nós

Saturday, October 07, 2006

Poderia ser tudo mais fácil, menina
se não buscasse o óbvio em cada esquina
talvez me encontrasse na calçada da rua
sentado, chorando, sonhando, olhando a lua
sorrindo, pulando, cantando, pensando... em você

Meu anjo, porque quer acreditar que não tem asas
e se conformar na segurança de ter os pés no chão?
se a caminho da felicidade tem que pisar em brasas
pra quê ir segamente pela estrada sem contramão?

O céu é horizonte expansivo pra voarmos livremente
flutuando num caminho de infinitas escolhas
os sonhos fazem brotar árvores da pequena semente
pra gerar ainda mais flores, frutos, galhos e folhas

Não entendo como alguém tão afável
prefere o riso hipócrita e confortável
ao choro glorioso de quem ousou sonhar
aceita o engodo da fria racionalidade
que tenta dizer-se dona da verdade
mas aos vibrantes corações não pode enganar

Largue essa vida forjada na busca de algum sentido
deixe de lado o medo de ser maior que nos foi permitido

Monday, September 25, 2006

O dia em que a negritude do ser humano venceu a brancura do papel

Saindo de madrugada e envolto numa conversa agradável com o colega sentado ao lado, praticamente não dormi. Após rápido cochilo, acordei. Despertava o alvorecer quando estávamos prestes a chegar. O sol se expandia maravilhosamente em cores vivas ao horizonte, desviando-se diante dos eucaliptos fincados à terra. Ainda que fosse princípio de manhã ele ardia como chama. Chama. Parecia realmente me chamar àquela luta. Soava como um prelúdio do que estava por vir ao longo do dia. As malditas árvores não mais impediriam o contato direto com a grandiosidade da natureza e do homem.
Vento na cara, fiquei observando o redor da estrada. Verde. Imensamente verde. Deserto, totalmente deserto. Deserto verte. Era ele mesmo que combatíamos, um dos motivos de irmos até lá. Fitei-o por longo tempo, ora olhando entre as frestas e procurando o que se escondia além do horizonte delineado por árvores caprichosamente paralelas e lineares, ora raivoso por me sentir sufocado em meio àquela uniformidade toda. Como dói aos olhos tropicais assitir ao domínio da natureza formatada. E saber que um dia aquilo tudo foi de uma incrível exuberância. Ah, mas nostalgia é conforto dos fracos. As lágrimas não secam enquanto não se lute por isso. Esse era o nosso propósito. Ver o passado revivido sob novos personagens, com a força dos que já se foram refletida e multiplicada no olhar de cada um que hoje estaria munido de coragem.

Continua aqui

Saturday, July 08, 2006

Silvia

O tempo todo estávamos juntos e não sabia. Não sabíamos. Sentíamos. Sente-se. Apenas sente-se à mesa posta e ceia comigo. Não fala que não precisa, deixa o conforto do silêncio nos dizer o que aquelas palavras todas não conseguiriam.

Sempre olhando pra ti assim gosto de lembrar. Eram tantos os sonhos que pareciam nunca chegar, mas que se multiplicavam e pareciam cada vez mais inatingíveis- e nem por isso menos desejáveis. E aquelas noites solitárias traziam um certo conforto que só hoje sei que eram teus afagos. Sem saber me carinhava e eu correspondia, sem querer, sem tocar. E nos víamos no refletir na lua.

Estranho. Logo nós, que nos achávamos tão fortes rendidos assim, por algo tão inexorável e que tão nos é superior. Atados e amordaçados. Vencidos, entregues. Felizes.

Não sei, mas parece tão óbvio. Nosso lugar-comum é tão comum, é tão simples, tão normal que chego a estranhar. Às vezes fico com medo. Medo de ter medo. De ter medo de ser feliz. Aí vem aquela música baixinha, o suspiro ao pé do ouvido, as unhas brincando de percorrer meu corpo e esqueço. Esqueço de todos e de tudo, do tudo e do nada. Parece que só existe o amor. O resto são coisas dispensáveis que a humanidade inventou pra tentar suprir a falta dele.

Wednesday, June 14, 2006

Te amo, amor
Amor, te amo
Amor te amo
A morte amo
Amem
Amem
Amém.

Monday, June 05, 2006

Luísa

Quadros bucólicos destoavam do quarto claustrofóbico ao qual ela se resumia naquele momento. Não havia porque nem por quem fingir que era feliz ali, vencida a ilusão de não estar a sós.

Corpo retorcido feito os galhos das árvores do quintal que não existia na infância que ela não teve. Lembranças melancólicas de um tempo que não existiu. Na visão distorcida de imagens desfocadas objetos estáticos sobrevoavam o chão oscilante. Ao som de cantos amordaçados e gritos afásicos, o ruído do rádio sem sintonia completava a fúnebre trilha sonora. O telefone fora do gancho evitava a ajuda que esperava mas não desejava.

Segredos enclausurados nas gavetas trancadas por chaves desaparecidas. Poemas que sobraram ardiam em fogo e se esvaiam em pó. Lágrimas esturricadas de um sangue já estancado.

Sonhos mortos estilhaçavam os espelhos de quem já não suportava mais se ver. O tilintar do brinde rachou as taças, derramou o vinho, obstruiu o caminho.

O parapeito desafiava: "Vai menina!". Ela ficou.
As armas intimavam: "Renda-se!". Ela lutou.

A racionalidade que cultivara com tanto afinco agora era vencida pelo que até então desconhecia e até hoje busca compreender. O sublime instante foi tão breve para que ninguém reparasse. Mas o mundo parou, para que ela girasse.

Monday, May 22, 2006

totalmente
total mente
mente total
men teto tal
mental teto
teto mental

Monday, May 15, 2006

Ponto final.
Fim.
Será o começo do fim ou o fim do começo?
O sonho não vem, a hora não chega
Coragem não há
Nem é covardia
Até quando?
Tudo acaba e não tem fim
A tortura não dói
O afago machuca
Até que termina
E começa tudo de novo
Sem fim nem começo
Só o agora
E continua...